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Crítica Atual Sobre o Uso do Termo Saúde Mental

  • Foto do escritor: aheapsic
    aheapsic
  • 9 de dez. de 2025
  • 3 min de leitura

Atualizado: 15 de dez. de 2025


Precisamos Nomear corretamente o Nosso Problema


Nas últimas décadas, o termo saúde mental tornou-se onipresente no debate público. Ele aparece nos discursos institucionais, na internet, campanhas de prevenção, nos protocolos clínicos e até na vida cotidiana das pessoas. E não por acaso: vivemos uma crise global de sofrimento psicológico.


O Brasil, segundo a Organização Mundial da Saúde, está entre os países com maiores índices de ansiedade do mundo e ocupa posições igualmente alarmantes nos indicadores de depressão.


Mas há um dado que passa despercebido: nós ainda não conseguimos nomear corretamente o problema que estamos tentando enfrentar.


Essa falha linguística é um dos primeiros obstáculos. Do ponto de vista da filosofia da linguagem, isso é um problema, pois nomear é o gesto inaugural de qualquer compreensão. Aquilo que é mal nomeado torna-se também mal interpretado, mal diagnosticado e mal cuidado.


A crise do sofrimento psicológico revela, portanto, em uma crise também, no campo da linguagem.


O termo saúde mental, tal como o utilizamos hoje, é uma invenção relativamente recente. Ele se consolida apenas na primeira fase do século XX, acompanhando a emergência da psiquiatria moderna, da psicologia científica e das primeiras políticas públicas voltadas à gestão estatal do sofrimento.


Do ponto de vista etimológico, é um termo estreito. Mente remete ao domínio cognitivo, às operações internas do indivíduo, aos processos abstratos do pensamento. Organizar o fenômeno nesses termos é recortá-lo de maneira inadequada. Reduzir o sofrimento psicológico à “mente” é ignorar aquilo que, hoje, a própria ciência reconhece: que se trata de um fenômeno biopsicossocial, produzido por redes complexas de relações, condições materiais, vínculos afetivos, histórias pessoais, violências estruturais e contextos socioculturais.


Parece algo simples mas enquanto nomeamos esse campo do sofrimento humano como saúde mental, deslocamos, de forma quase automática, a responsabilidade para dentro do indivíduo. Atribuímos assim, ao sujeito, à sua mente, sua força de vontade, sua capacidade adaptativa, a origem e a solução de dores que são, na verdade, também constituídas por sistemas sociais, históricos, políticos e culturais.


E esse deslocamento tem consequências: ele individualiza o que é coletivo, psicologiza o que é estrutural e simplifica sofrimentos que são, antes de tudo, efeitos de um mundo de múltiplas interações.


No Brasil, esse equívoco se intensifica porque a psicologia é uma ciência institucionalmente jovem, apenas 63 anos de regulamentação e ainda luta para consolidar uma linguagem capaz de abarcar a complexidade do fenômeno que estuda.


A verdade é que persistimos utilizando uma categoria conceitualmente limitada para nomear uma experiência que exige um vocabulário mais robusto, mais preciso e mais condizente com a dimensão do problema, principalmente aqui no Brasil.


Por isso, diante dessas reflexões, alguns pesquisadores e profissionais tem utilizado o termo saúde psicológica no lugar de saúde mental.


Saúde Psicológica é um termo um pouco mais amplo, pois não reduz o sujeito ao pensamento, respeita o fenômeno da experiência, reconhece que o sofrimento emerge no entre camadas bio-psico-sociais, entre pessoas, entre condições, entre histórias e entre mundos.


Nomear bem não resolve a problemática, mas abre um caminho melhor para compreensão do problema. Nomear mal, ao contrário, garante que continuemos tentando resolver um problema, que nem se quer conseguimos identificar direito a sua origem.


Por isso aqui no AHéA! Lab, evitamos o uso do termo saúde mental e optamos por seguir as correntes que optam pelo termo Saúde Psicológica.

 
 
 

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